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quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Almas Sem Lar

Os meus olhos sangram ao ver o proletariado seguindo sua liturgia diária, sem questionar, na ilusão de um dia ser alguém, sem ao menos tentar. Minhas veias saltam ao perceber que a burguesia usa do seu poder para auferir mais e mais ganhos na compra de "futilidades" importantes apenas para os iguais; na tentativa de suprir necessidades internas jamais superadas. Vivemos na utopia, movidos pelos desejos e ambições, tão filtrados em nossas vidas que não percebemos os pobres pedindo moedas nas calçadas, não ouvimos a dolorosa sinfonia do estômago dos miseráveis suplicando por comida.

Lobos solitários, vagam pelas ruas sedentos para amar, dormem ao relento com o sereno encobrindo a pouca dignidade que lhes resta. Seus putrefatos trajes se desfazem ao tocar, sofrem em silêncio fingindo não ver do que precisam, vendendo seus corpos por poucos trocados. Esquecidos, são tidos como a escória da sociedade, a ralé desmerecedora dos valores que enraizamos em nossos primogênitos, que prezamos a vida toda, mas que somos capazes apenas de contextualizar. A invisibilidade do seu ser ou a falta de visão dos nossos olhos faz com que eles deixem de existir, são vistos apenas quando esbarramos com um ou com outro nas ruas; do alto, são vistos como inferiores, uma pequena mancha difícil de sair, imersos em um mundo de vaidades queimando na fogueira de egos.

A globalização e o avanço tecnológico têm alcançado as diferentes sociedades contemporâneas, têm gerado consequências negativas configuradas na reprodução de desigualdades sociais e na falta de garantias; de saúde, moradia e dignidade da pessoa humana para grande parcela da população. Com o passar dos anos notamos, cada vez mais, que a civilização –animais racionais– não foram capazes de constituir um pacto que trouxesse melhorias para uma sociedade assolada pelos maus tratos. Uma guerra sem armas, a desigual distribuição de bens, a descriminação, o desrespeito às diferenças, a incerteza; a involução de valores não são anomalias, mas constituintes do pensamento globalizado e do egoismo natural.

Assim se puseram... A mercê da vida, vítimas de um sistema que não funciona. Pela falta de socialização com os outros tornam-se “primitivos”, em pleno século XXI, a miséria contribui para que os laços culturais e afetivos sejam rompidos, gerando abandono, fragmentação de relações e de identidades. A falta de calor humano faz com que entrem no estado de paranoia, criam realidades irreais, comunicam-se com o espelho, se assustam com os fantasmas que insistem em persegui-los.

Muito se verbaliza referente à inclusão, porém o grande desafio é arrancar com força e brutalidade traços que vão sendo pincelados pela sociedade ao longo dos anos, traços esses que excluem os diferentes e incluem os iguais, pré-conceitos pregados ainda dentro das gonadas. Estar incluído, sentir-se parte de um clã e idealizar seu futuro depende de uma mudança global e diante de tantas incertezas que condicionam o contexto social contemporâneo percebe-se a necessidade de humanismo, empatia e amor ao próximo.

“Sentimentos nos escapam e escoam pelas pequenas arestas que se formam diante das desilusões”.

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