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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

EGO

Das profundezas do sub-mundo, habitável apenas por aqueles que não prezam pela vida, por aqueles que se fazem de blasé ao sol ou à lua, os indiferentes à existência e a sua potencialização, ainda para aqueles que se encontram incipientes no processo de evolução. Para todos esses, vos digo: “Na noite clara, no dia escuro. Não temerás ao mal, ainda que inferior a ele, pois estarei convosco e assim será, se diante de mim se ajoelhar e em silêncio falar”. O eco foi iminente, a voz ecoou pelos 07 redutos e meus soldados se puseram diante de mim, o respeito era absoluto, suas almas eram minhas e todos queriam assim, aguardando por minhas ordens: os que comiam restos de gente, de podridão, os que bebiam a última gota de esperança e amor que ainda escorria por suas faces. Seus olhos avermelhados e dentes sujos se misturavam aos cabelos ensebados e em estado de putrefação. Parecia o céu, eu sei, ver tantos cervos postos em forma, prontos para me obedecer e de bom grado, o ego me deu esse poder e dele farei uso.

Com meu cajado, formado por ossos, com um crânio humano e um fêmur, bato-o três vezes no chão e uma multidão se reverencia ao meu comando. Ordeno-os que cumpram sua missão, seus destinos são lançados ao vento a fim de contar com o imprevisto e com o som alto do destino, que muitas vezes nos cerca e nos envolve estridentemente. Todos saem desesperados, em ânsia pela destruição, a sede os fazia salivar, sede de humanismo, seu hálito cheirava a corpos em decomposição. Sento-me no trono e assisto de camarote meus servos fazerem o que fazem de melhor, os poucos que ousavam titubear frente a uma ordem proclamada eram extirpados antes mesmo de piscar e o medo era mais que presente. O orgulho a essa altura fazia parte de mim e não poderia ser diferente, estava no comando da obra mais divina que poderia existir, todos sob minhas mãos como massa onde você manipula e molda para onde bem quer.

O destino era sombrio e a vida vazia, mesmo diante de tantos, as lágrimas molhavam o caminho por onde meus pés trilhavam. A arrogância e a prepotência tomavam conta do contexto e o real proposito se perdia na batalha que já perdurava III séculos. Corpos eram arremessados em fissuras formadas pelo distanciamento das placas tectônicas, a lava eclodia sobre a poeira que tomava conta do ar ameaçando o resto de calor existente nos céus, por anos houve ausência total de empatia. Só o que importa é o que eu queria, uma única cabeça, uma única decisão e ainda assim não foi a certa, em alguns anos destruí tudo o que havia sobre a terra, passei por cima de todos que se negaram a mim e no final fui o único sobrevivente. Caminhando por dentre os corpos extirpados e com sangue espalhado por todos os lados, pego um aparato usado na guerra, parece que nem eu vou sobreviver a mim, meu EGO é maior que um buraco negro que quanto mais consome mais anseia consumir.

Perto de por fim, naquilo que chamam de vida, eis que surge no meio do infinito, como um ladrão e aos trapos, um homem que se aproxima rapidamente e diz: “- Ainda há esperança.” Nesse momento percebo o quão indigno era este ser da minha presença, pego a arma, que seguro firmemente com a mão direita, puxo o gatilho e atiro em sua cabeça, explodindo seu cérebro e acabando com qualquer esperança, ainda com a arma se esvaindo em fumaça e com o cano quente coloco-a no meu queixo e grito para que todos os mortos ouvissem “- Não há mais esperança, não há.” Sem precisar buscar por ar aperto o gatilho e um barulho ensurdecedor se ouve... era o meu despertador, o mundo real estava me chamando e diante de tamanha utopia a melhora se fazia necessária e o EGO a partir de então, foi banida do meu ser.

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