Páginas

Marcadores

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Chibata

Quando um preto chora, sua alma implora.
Quando num tronco o esfola, seu dono comemora.
Sinhá moça cresce com essa visão;
vê no mundo uma divisão,
café e leite nunca se misturam.

Eles ignoram, mas preto também ora.
Suas mãos, calejadas pelo trabalho duro,
um dia escrevera um livro,
tocara uma harpa.
Seus lábios, rachados do frio,
um dia soprara uma flauta.
Não fossem os donos do mundo...

Não há medo maior do que ver seu
senhor erguer a chibata.
Não há sofrimento maior do que ver
seu filho ser açoitado até a morte.

Somos estuprados, corpo e alma.
Não há deuses.
Somos cerceados.
A liberdade nos foi roubada.
Anos a fio...
O que se espera de nós?
Mais trabalho, obediência.
O que sobra para nós?
Migalhas.
O que fizemos para merecer?
Nascemos.

“E o servo que soube a vontade do seu senhor,
e não se aprontou nem fez conforme a sua
vontade, será castigado com muitos açoites;”
“Bíblia Sagrada” Lucas 12:47

Eles podem me tirar a vida.
Eles podem me tirar o sangue.
Eles podem me tirar a prole.
Eles podem me tirar tudo,
mas nunca tirarão quem sou,
e eu sou gente.

Nenhum comentário: